não eram de seda, nem de linho… seus lençóis eram de algodão azul
ela se revirava no azul de sua cama, nua, só a pele a roçar o algodão… seus pensamentos viajavam para além daquelas paredes recém-pintadas.
à beira mar… era onde ela estava…
longe das luzes da cidade, longe das luzes de seu quarto, aconchegada no calor de seus desejos de alcançar o que estava longe de sua pele, de seu corpo…
desejo daquele que nunca esteve…
congelada de medo, se viu no meio de um jogo de ideias, presa das estratégias das palavras que selavam o acordo, a negociata, o desafio…
o telefone tocou e seu coração num disparo simultâneo quase saltou pela boca quando as palavras saíram e o pedido inevitável se fez… ela não conseguia mais calar, ela não conseguia mais omitir
não ouvia a voz que vinha do outro lado do aparelho, apenas suas ideias que embaralhavam as palavras em sua boca
ela não conseguia organizar sua fala e o texto ficou fragmentado…
ele entendeu, ele recuou, ele aceitou e depois negou…
ela sabia que o tocava, bem mais do que ele se fazia perceber… ela bem o sabia
e todo seu medo se consistia nisso: o quanto seu coração se unia ao dele naquele desejo em comum, naquela vontade de refazer a história, no afeto não compreendido no tempo certo, não morto quando devia, resistente ao tempo, às convenções, resistente a tudo o que era real em suas vidas, a tudo que o tentava calar em vão
e a culpa… ah! a culpa
senhora dos destinos daqueles dois…
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